terça-feira, 31 de maio de 2011

Pré-conferência Carnaval – Os desafios com a lei

Quando me convidaram para a pré-conferência do Carnaval que foi realizada na manhã do sábado (28/05), achei que não ia dar certo, pelo dia e horário. Eis que fui surpreendido. Meu “pré conceito” foi desarmado por uma informação triste que tomei conhecimento no encontro.  Uma série de normas estabelecidas pelo Ministério Público estaria restringindo os ensaios das três escolas de samba da cidade: Acadêmicos de Gravataí, Unidos do Vale e Cativos.

Vou me beneficiar do fato de ser jornalista e de ter direito a preservação das fontes, e tentarei transcrever uma fala de um dos participantes da pré-conferência. “Por que a sede do Acadêmicos de Gravataí foi restringida nos horários de ensaio, enquanto um clube tradicional da cidade, que fica a poucos metros da Acadêmicos, continua promovendo festas e eventos que entram a madrugada nas noites de sextas-feiras e sábados?”. O fato é que a ação jurídica pediria isolamento acústico da sede da escola de samba, o que em ternos de custos são inviáveis a tal agremiação. Além disso, a norma estabeleceria as regras de tratamento sonoro e de horários de ensaios às outras escolas de Gravataí.

Segundo uma representante de uma escola, existiria em uma das clausulas que determinadas manifestações das escolas seriam passíveis de multas. O fato é, as coisas não vão bem para as escolas gravataienses. Sob este cenário, o grupo fez propostas como a construção de um barracão coletivo para as escolas de samba, a inclusão de apresentações artísticas em eventos que ocorrem durante o ano, a criação de lei municipal para regulamentação dos ensaios, entre outro.

Segundo a Fundarc, aproximadamente 2000 pessoas participam ativamente do carnaval, seja nas escolas e blocos. O carnaval teve a maior verba da cultura de 2011, somando R$ 300 mil, entre auxílios às escolas e na realização de muambas nos bairros. Cabe salientar que a muamba ocorrida na Morada do Vale contou mais mais de 15 mil pessoas prestigiando o evento. As outras muambas demonstraram um fato social importante ao serem prestigiadas pelas pessoas mais carentes. Sendo assim, o número de beneficiados justifica tal investimento.

O carnaval destaca-se por sua interatividade com as demais artes como a dança, a coreografia, a literatura e a história para pesquisa de composições dos sambas enredos. Em Gravataí, se caracteriza por ser basicamente de cultura negra, e por isso, estaria sofrendo por preconceito. Foi consenso entre os participantes da necessidade de qualificação para elaboração de projetos e captação de recursos, principalmente junto ao setor privado. Além disso, por maior que seja o universo carnavalesco falta representatividade política na solução de problemas. Um dos participantes comentou que nenhum vereador da cidade visitas as escolas.

Pré conferência da diversidade


Os desafios e objetivos culturais  relatados na Pré-conferência da Diversidade transcendem o conceito de artista,  público e objeto, na busca de uma compreensão defende os princípios antropológicos de uma nova consciência de direitos humanos como forma de reconhecer igualitariamente a quem tem uma opção sexual diferente da consciência tradicional heterossexual. 


A Fundação Municipal de Arte e Cultura – Fundarc – teve esta brilhante visão de que a evolução e conscientização dos direitos à diversidade sexual são, também, ações de cultura. Diferente de uma poesia, de uma dança, musica ou qualquer outro elemento percebido como um material cultural, o respeito aos direitos para aqueles que têm uma tendência de felicidade que vai contra o que é pregado, também é uma forma cultural a qual a sociedade se apresenta com seu comportamento.

Os participantes da Conferência, realizada na noite de sexta-feira (27/05), na sede da União de Apoio e Prevenção da Aids (UAPA),  enfatizaram fatos de agressão e descriminalização  principalmente aos travestis e transexuais da cidade. Houve críticas a própria polícia que, em muitas vezes, faz pouco caso desta violência. A dificuldade de mobilização dos ativistas foi um ponto interessante. 


Pela própria repressão cultural é difícil a participação das pessoas neste movimento em função de se assumirem. Porém, o grupo sugeriu a criação de uma entidade que dialogue com os diversos setores da sociedade. Esse grupo deverá promover eventos e discussões de conscientização como nas polícias, entidades tradicionais, escolas e outros. Buscando esclarecer e interagir de forma organizada com a cidade.

Pontos positivos
A crescente participação da comunidade nas paradas livres é um exemplo de conscientização. No evento realizado pela Fundarc em 2010, foram contabilizadas mais de dez mil pessoas. Além disso, a participação do movimento no desfile de sete de setembro, foi um marco nos paradigmas dessa data de característica militar.

O esclarecimento das leis e direitos à diversidade foi relatado como prioritário para o bem-estar de todos. Cada participante reconheceu que cada homossexual é um exemplo de pessoa vitoriosa. A sociedade precisa reconhecer que o gay ou a lésbica, antes de sua opção sexual é uma professora, um advogado, um comerciante ou uma bancária. São pessoas que contribuem para o bem comum. Por isso, aqueles que defendem os direitos dessa classe lutando contra uma sociedade excludente e preconceituosa, é exemplo sim de pessoa com dignidade.

O desafio de planejar a cultura em Gravataí

Dos 32 anos que vivo em Gravataí, creio nunca ter presenciado um momento tão especial para cultura local. A Fundação Municipal de Arte e Cultura (Fundarc) irá promover a III Conferência Municipal de Cultura, nos dias 3 e 4 de junho no CTG Aldeia dos Anjos. Entre os objetivos deste acontecimento estão a escolha do novo Conselho Consultivo do órgão, a instalação do Fundo Municipal de Cultura, e o que eu destaco como mais importante – a construção do Plano Municipal de Cultura - que terá vigência de dez anos.
* Clique no link para ver o regulamento da III Conferência http://www.gravatai.rs.gov.br/site/noticias.php?id=146142
Para a consolidação das propostas na Conferência, a Fundarc já está realizando 11 pré-conferências, as quais estão divididas em temáticas de atuação cultural. Obviamente teatro, música e literatura aparecem na pauta. Destaco a inclusão de temas como diversidade e livre orientação sexual como pauta cultural.
As pré-conferências estão auxiliando as temáticas culturais a diagnosticarem problemas e visualizar soluções para o setor, além de integrar artistas e sociedade civil no debate e no fomento de ações. Neste caso, cada setorial está avaliando sua realidade, traçando objetivos e buscando meios para as realizações.
Desta forma, cada setorial está organizando e focando sua intervenção na Conferência. Este processo também potencializa a articulação política entre os participantes. A Fundarc dá grande exemplo de democracia ao entregar ao participantes da Conferência o método de escolha de delegados e de consolidação das propostas ao Plano Municipal de Cultura.
Mas afinal, que cultura queremos?
Os que me conhecem sabem que fui músico profissional por alguns anos. Hoje, sou jornalista, gosto de fotografar e desenvolver atividades que tenham a ver com a cultura. Participei de algumas discussões na Fundarc, no tempo da Rozinha. E digo, não era fácil. Era cada um puxava a brasa para o seu lado. O que não tem nada de errado e anormal. Porém lembro que alguns destacavam realizações que envolvessem o maior número possível de artistas e consequentemente de interação de público.
O  nível de debates propostos pela Fundarc exaltam uma evolução no processo de pensar a cultura, demonstrando que as variadas atividades culturais estão interligadas. Quando se fala em teatro, não se vê apenas a encenação como característica cultural. A peça de teatro tem roteiro, que pode ter uma origem de uma literatura, o cenário pode ser feito por um artista plástico ou coreógrafo, a trilha sonora é música. Logo se percebe que as artes estão interligadas. O mesmo serve para o carnaval e para o tradicionalismo, por exemplo.
Discutir a questão da opção sexual é propor uma visão de cultura, nos moldes que eu percebo a função social que o jornalismo deve ter. Vou explicar... O jornalismo é capaz de trazer um conhecimento ao seu público que não é acadêmico e nem empírico. Este jornalismo pode expor informações e conhecimento de fatos, lugares e pessoas que contribuem para o crescimento intelectual e de reflexão.


Neste caso, a Fundarc compreende que a livre orientação sexual é direito e opção exclusiva do indivíduo, e que este ser humano é digno dos mesmos direitos de qualquer cidadão. Sendo assim, o preconceito e a discrinalização é um fator de “falta de cultura” de determinados segmentos da sociedade. Além disso, há o universo cultural gay, com artistas, festas e eventos. A última Parada Livre da cidade contou com a presença de mais de dez mil pessoas. Isto demonstra boa representatividade pública, o que poderia até eleger três vereadores, por exemplo.
Se pararmos para enumerar as ligações culturais que envolvem a sociedade, teremos grande surpresa de saber da magnitude deste segmento, como receita e números. Se considerarmos que filme é cultura, podemos afirmar que cada locadora é um ponto de cultura. Há diversas casas noturnas na cidade que apresentam diversos artistas nos mais variados estilos musicais, lojas de artigos, livrarias, entre outros.
Vejo também como desafio do Plano Municipal de Cultura a relação da história de Gravataí e as novas ferramentas tecnológicas de propagação cultural. Como preservar e divulgar a história local e também levar a cultura às casas das pessoas via internet? Do facebook, My space a documento seculares e as tafonas de farinha de mandioca, como a população terá acesso à nossa cultura?
A medida que se percebe o enraizamento de fatos e atores culturais, mais se compreende a necessidade de manutenção e investimentos neste setor. Vejo que é necessário que os artistas locais compreendam que não há orçamento suficiente do poder público para se concretizar tudo que for almejado. A capacitação de produtores culturais é fundamental para captação recursos junto a organizações. Assim, o artista consiga se profissionalizar, havendo mais condições de viver de sua arte, afinal maioria dos artistas de Gravataí tem emprego em outros segmentos para complementar sua renda.
Quero concluir relembrando uma entrevista que vi com a cantora Leci Brandão, hoje deputada. Ela revelou que nos meados dos anos 80, artistas, produtores e veículos de comunicação do estado da Bahia se organizaram e se comprometeram em só promover a cultura regional, com a visão de que em um determinado período esta arte transcenderia as fronteiras baianas. Não deu outra. Logo em seguida, a lambada tomou conta do país, depois veio o axé e assim por diante. Isto é um exemplo claro da organização e planejamento cultural. Alguém questiona que a Bahia não seja um dos maiores polos culturais do Brasil?
Chegou a vez de Gravataí
Boa Conferência a todos!