Dos 32 anos que vivo em Gravataí, creio nunca ter presenciado um momento tão especial para cultura local. A Fundação Municipal de Arte e Cultura (Fundarc) irá promover a III Conferência Municipal de Cultura, nos dias 3 e 4 de junho no CTG Aldeia dos Anjos. Entre os objetivos deste acontecimento estão a escolha do novo Conselho Consultivo do órgão, a instalação do Fundo Municipal de Cultura, e o que eu destaco como mais importante – a construção do Plano Municipal de Cultura - que terá vigência de dez anos.
Para a consolidação das propostas na Conferência, a Fundarc já está realizando 11 pré-conferências, as quais estão divididas em temáticas de atuação cultural. Obviamente teatro, música e literatura aparecem na pauta. Destaco a inclusão de temas como diversidade e livre orientação sexual como pauta cultural.
As pré-conferências estão auxiliando as temáticas culturais a diagnosticarem problemas e visualizar soluções para o setor, além de integrar artistas e sociedade civil no debate e no fomento de ações. Neste caso, cada setorial está avaliando sua realidade, traçando objetivos e buscando meios para as realizações.
Desta forma, cada setorial está organizando e focando sua intervenção na Conferência. Este processo também potencializa a articulação política entre os participantes. A Fundarc dá grande exemplo de democracia ao entregar ao participantes da Conferência o método de escolha de delegados e de consolidação das propostas ao Plano Municipal de Cultura.
Mas afinal, que cultura queremos?
Os que me conhecem sabem que fui músico profissional por alguns anos. Hoje, sou jornalista, gosto de fotografar e desenvolver atividades que tenham a ver com a cultura. Participei de algumas discussões na Fundarc, no tempo da Rozinha. E digo, não era fácil. Era cada um puxava a brasa para o seu lado. O que não tem nada de errado e anormal. Porém lembro que alguns destacavam realizações que envolvessem o maior número possível de artistas e consequentemente de interação de público.
O nível de debates propostos pela Fundarc exaltam uma evolução no processo de pensar a cultura, demonstrando que as variadas atividades culturais estão interligadas. Quando se fala em teatro, não se vê apenas a encenação como característica cultural. A peça de teatro tem roteiro, que pode ter uma origem de uma literatura, o cenário pode ser feito por um artista plástico ou coreógrafo, a trilha sonora é música. Logo se percebe que as artes estão interligadas. O mesmo serve para o carnaval e para o tradicionalismo, por exemplo.
Discutir a questão da opção sexual é propor uma visão de cultura, nos moldes que eu percebo a função social que o jornalismo deve ter. Vou explicar... O jornalismo é capaz de trazer um conhecimento ao seu público que não é acadêmico e nem empírico. Este jornalismo pode expor informações e conhecimento de fatos, lugares e pessoas que contribuem para o crescimento intelectual e de reflexão.
Neste caso, a Fundarc compreende que a livre orientação sexual é direito e opção exclusiva do indivíduo, e que este ser humano é digno dos mesmos direitos de qualquer cidadão. Sendo assim, o preconceito e a discrinalização é um fator de “falta de cultura” de determinados segmentos da sociedade. Além disso, há o universo cultural gay, com artistas, festas e eventos. A última Parada Livre da cidade contou com a presença de mais de dez mil pessoas. Isto demonstra boa representatividade pública, o que poderia até eleger três vereadores, por exemplo.
Se pararmos para enumerar as ligações culturais que envolvem a sociedade, teremos grande surpresa de saber da magnitude deste segmento, como receita e números. Se considerarmos que filme é cultura, podemos afirmar que cada locadora é um ponto de cultura. Há diversas casas noturnas na cidade que apresentam diversos artistas nos mais variados estilos musicais, lojas de artigos, livrarias, entre outros.
Vejo também como desafio do Plano Municipal de Cultura a relação da história de Gravataí e as novas ferramentas tecnológicas de propagação cultural. Como preservar e divulgar a história local e também levar a cultura às casas das pessoas via internet? Do facebook, My space a documento seculares e as tafonas de farinha de mandioca, como a população terá acesso à nossa cultura?
A medida que se percebe o enraizamento de fatos e atores culturais, mais se compreende a necessidade de manutenção e investimentos neste setor. Vejo que é necessário que os artistas locais compreendam que não há orçamento suficiente do poder público para se concretizar tudo que for almejado. A capacitação de produtores culturais é fundamental para captação recursos junto a organizações. Assim, o artista consiga se profissionalizar, havendo mais condições de viver de sua arte, afinal maioria dos artistas de Gravataí tem emprego em outros segmentos para complementar sua renda.
Quero concluir relembrando uma entrevista que vi com a cantora Leci Brandão, hoje deputada. Ela revelou que nos meados dos anos 80, artistas, produtores e veículos de comunicação do estado da Bahia se organizaram e se comprometeram em só promover a cultura regional, com a visão de que em um determinado período esta arte transcenderia as fronteiras baianas. Não deu outra. Logo em seguida, a lambada tomou conta do país, depois veio o axé e assim por diante. Isto é um exemplo claro da organização e planejamento cultural. Alguém questiona que a Bahia não seja um dos maiores polos culturais do Brasil?
Chegou a vez de Gravataí
Boa Conferência a todos!